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Lições de (in)Segurança Viária no coração de Boa Viagem e o modelo de Cidade (e Vida) que queremos

Atualizado: 2 de fev. de 2023

Auditoria cívica inédita no estado contribui com reflexões para promover espaços urbanos menos desiguais e qualidade de vida com sustentabilidade.


Por Raquel Lins - Cientista Política (UFPE), Pós-Graduada em Planejamento e Gestão Pública (UPE) e criadora do Pernambuco Transparente (projeto totalmente voluntário com 5 anos de existência - conheça sua trajetória em seção exclusiva)

"O bairro de Boa Viagem ocupa um lugar especial no coração do recifense. O local era originalmente uma colônia de pescadores, frequentado apenas para estação de veraneio. Começou a ser povoado no século XVII. Em 1965, a orla de Boa Viagem era bem diferente: havia 200 casas e apenas três edifícios: o Holliday, o Acaiaca e o Califórnia."


Esse pequeno recorte do texto "Boa Viagem ao longo do século", escrito por Raíssa Castro, do blog de jornalismo da UNICAP, serve para introduzir a discussão que aqui se destrincha, a partir do dilema do rápido crescimento de um bairro que, hoje, é um dos mais populosos da capital pernambucana e centro turístico.


As mudanças ocorridas em Boa Viagem fizeram do bairro o mais rico da Zona Sul do Recife e um dos mais importantes da cidade, embora não seja o mais desenvolvido, por causa das favelas como a Entra Apulso, Tancredo Neves e Bruno Veloso. Possui uma infraestrutura robusta, com lojas, restaurantes, bares, hotéis, boates, escolas e edifícios, principalmente na Avenida Boa Viagem, o endereço residencial mais caro da cidade. Nove décadas ulteriores, as mudanças transformaram Boa Viagem de um antigo bairro de veraneio e uma tranquila colônia de pescadores no local mais disputado não só por moradores e empresas do mercado imobiliário, como por empreendedores de comércio e serviços.


Apesar de adensar uma espantosa parcela da sociedade recifense com maior renda, o bairro serve de caso ilustre e referencial sobre uma imposição eminente dos tempos presentes para tornarmos nossas cidades mais inteligentes e humanas: a retomada da escolha por modelos e padrões urbanísticos que priorizem a escala humana e o bem-estar do pedestre, aqui adotando uma perspectiva inclusiva, relacionada às pessoas com deficiência, e até mesmo mobilidade reduzida, como idosos, crianças, gestantes, etc.


Em 2022, um século depois da inauguração da Avenida Boa Viagem, que iniciou a ocupação da orla e foi um marco da história do bairro, a prisão à padrões infelizes surgidos na segunda metade do século XX, tornam o mero transitar pelo bairro para cumprir tarefas cotidianas (como ir ao supermercado, à padaria, à praças, farmácias), uma experiência desagradável e insegura. Se para os moradores essa é a sensação diária, não é diferente para o turista, que geralmente tem o bairro como ponto de partida para conhecer a cidade.


Em verdade, nos últimos 60 anos, as cidades têm sido planejadas, construídas e modificadas para os carros. Por décadas, acomodar os veículos nas ruas foi, e em muitos casos ainda é, prioridade de autoridades e gestores. É com a ideia de mudar esse paradigma – e enfim começar a pensar em cidades para pessoas – que grandes reformas estão mudando o perfil de metrópoles mundo afora, como em Nova York, Amsterdam, ou Paris, para mencionar algumas. Devemos seguir o cortejo, aspirando uma transição latino-americana, com redes para debate de projetos: devolver a cidade às pessoas é a bandeira, e para tanto é preciso engrenar as necessidades dos pedestres, ciclistas, e pessoas com mobilidade reduzida, tudo por meio de um planejamento integrado para fazer das cidades lugares mais sustentáveis, seguros e habitáveis.


Todas as cidades precisaram e precisarão fazer essa decisão. Como qualquer infernal cidade grande brasileira, Amsterdã já foi um lugar cheio de carros, poluição, barulho e trânsito. Cansada do estresse diário e sensibilizada com a morte de crianças no trânsito, por volta da década de 1970, a população holandesa decidiu se unir para exigir que a cidade fosse reestruturada para que o principal meio de locomoção fosse a bicicleta (uma invenção de 1817). E deu certo! Novos projetos foram criados e a cidade foi redesenhada para os ciclistas, tornando-se o que nos anos vindouros seria o maior centro de bicicletas do mundo.



Capital da Holanda, minúsculo país europeu que se valeu até de uma política de incentivo ao abandono dos carros com compensação financeira, Amsterdã é o retrato do que a pressão da sociedade por qualidade de vida atrelada a uma gestão pública diligente pode alcançar: há ciclovias em quase todas as principais vias e pode-se deixar a bike com segurança em quase todos os lugares - lá, diferente da maioria das cidades do mundo, elas têm preferência dentre todos os meios de transporte, o que dá uma grande segurança para os ciclistas.


E não cansam de impressionar: no último, 26 de janeiro de 2023, a Estação Central de Amsterdã inaugurou um novo estacionamento para bicicletas, que não foi construído sobre ou sob o solo, mas sob a água. Como o maior estacionamento de bicicletas da cidade, a garagem de bicicletas Stationsplein foi construída sob o chamado 'Open Harbourfront' e pode armazenar quase 7.000 bicicletas (UAU!). Um segundo estacionamento subaquático para aproximadamente outras 4.000 bicicletas será inaugurado este mês de fevereiro, no outro extremo da cidade. São mesmos uns arretados esses holandeses, aplausos!


A suntuosidade não nega a seriedade da causa: como demonstra o vídeo da Embaixada Holandesa de Ciclismo, uma rede público-privada para mobilidade inclusiva de bicicletas que representa o melhor do ciclismo holandês: conhecimento, experiência e especialistas - e que pode ser acompanhada pelas redes sociais (Youtube, Twitter, ou Instagram).


Cortando as asas e voltando às bandas de cá, ao mesmo tempo em que o Brasil está localizado no continente mais urbanizado do mundo, a América Latina, e se configura atualmente como o país mais urbanizado da região (dados do último censo, realizado em 2010, indicam que 84,4% da população brasileira é urbana e a previsão é que, em 2030, esse índice chegue a 91,1%), uma série de desafios atrelados ao tema persistem: são abundantes os problemas de ordem econômica e ambiental, expansão desordenada, segregação socioeconômica e questões relacionadas à saúde, segurança e efeitos da mudança climática - neste continente, que é coincidentemente, o mais desigual do mundo.


Refletir genuinamente sobre o processo de urbanização é uma oportunidade e uma espécie de motor para rever o modelo de desenvolvimento, algo com potencial visceral e revolucionário quando se trata, então, de pensar justamente o caso da capital que, na atualidade, infelizmente, foi apontada pelo IBGE como a mais desigual e a região metropolitana do país onde os pobres são mais pobres. Ademais, a sustentabilidade aqui, precisa ser um dos princípios norteadores: Recife é a capital mais ameaçada do país e a 16ª no mundo pelas mudanças climáticas, segundo o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da ONU (IPCC).


Pensar no futuro de nossa cidade é prevenirmos as implicações de tais riscos. O ano fatídico de 2022 trouxe não somente esse rol de declínios, mas o maior desastre ambiental ocorrido localmente no século (advindo das chuvas). Em decorrência, em outubro do mesmo ano estreamos as campanhas "Lixo no Lixo" e "Litoral Protegido": a primeira, com encadeamentos de auditoria cívica e 'mão na massa' em três bairros, sendo dois deles Boa Viagem e Brasília Teimosa, no Recife. Um dos frutos dessa jornada foram observações sobre o agudo embaraço - tristemente, já naturalizado por quem transita pelo que deveria ser um bairro nobre da capital -, de convívio com falta de urbanidade de motoristas, a irregularidade das calçadas e trechos com falta de sinalização básica, em um quadro de total falta de qualidade do ir e vir.


Como esses transtornos trazem impactos contundentes não somente na qualidade de vida, mas aumentam a possibilidade de acidentes graves, esta publicação especial está sendo realizada previamente ao conteúdo que lançaremos sobre as ações das campanhas. A torcida é que possa suscitar, quem sabe, intervenções fielmente impulsionadoras de bem-estar e prevenção de quaisquer sinistros, em um território de incontestável vulnerabilidade dos não-motorizados. E, claro, uma cidade onde o bem-estar se faça perceptível para o máximo de pessoas possível.


Se é nas cidades que a maior parte das pessoas vive e trabalha e se na capital pernambucana a maioria das pessoas (aproximadamente 70%) vive a cidade diariamente adotando o transporte público, a bicicleta e o caminhar como meios principais de mover-se, são as pessoas e sua qualidade de vida que devem estar no centro das discussões dos planos urbanos e de mobilidade. Mais do que simplesmente banir os automóveis das ruas, estamos convidando você a refletir sobre a relação que tem com sua cidade, com as pessoas ao seu redor e como se locomove no dia a dia. Acima de tudo, ela é consequência de uma escolha (consciente ou inconsciente) coletiva, estampada em nosso orçamento municipal.



Logo, agora estamos diante de um banquete de consequências das preferências de tantos anos e a ratificação que no desenho urbano a profunda desigualdade é sentida pela maioria dos recifenses, em algo tão vital como o ir e vir. No Recife, segundo dados oficiais, o maior índice de mortes no trânsito está entre os pedestres, diferente do restante do Brasil, onde as principais vítimas fatais no trânsito são os motociclistas. Não gratuitamente, estamos entre os piores tráfegos mundialmente: além de sermos o campeão nacional, o Recife foi a 24ª cidade com os piores congestionamentos no Traffic Index 2021 (apesar de uma melhora em relação ao levantamento de 2020, quando foi eleito mais uma vez o pior do Brasil, e um dos 15 piores do mundo). Um desperdício imenso de tempo, exclusivamente para o deslocamento casa-trabalho-casa.


No triste elenco, somamos mais um em janeiro de 2023: Recife está entre as dez principais cidades com maior tempo de espera e deslocamento do mundo, segundo o Relatório Global de Transporte Público. Uma aflição humilhante bem conhecida pela esmagadora parcela da sociedade pernambucana. Não foram poucos os protestos da Frente de Luta pelo Transporte Público, que lutou por audiências públicas para debater a rotina de calamidade no Legislativo (tanto na Câmara Municipal, como na Alepe) e uma CPI, sem sucesso. No cenário nacional, Recife é a cidade em que os passageiros esperam o ônibus ou metrô por mais tempo e demoram mais a chegar ao destino final.



E, agora, como podemos mudar de rumo e sermos mais felizes?


Nosso planejamento de cidade e tudo que executarmos adiante necessitam estar pautados na sustentabilidade e almejar a redução de desigualdades, é claro. Para desgraça dos amadores e mal planejadores, nenhum Arco Metropolitano nem tampouco 'inovações delirantes' salvarão nossas cidades de um destino cruel se não encararmos o impasse sobre que tipo de vida desejamos para nós mesmos e as condições que encontramos, de fato, ao nosso redor.


Basta lembrar que o Terminal de BRT em Igarassu segue inconcluso, a PE-15 inóspita e bagunçada aguardando uma requalificação, e o Plano Diretor Cicloviário metropolitano anda a passos lentos - para não mencionar insuficiência de governança urbanística mínima em Paulista, alvo do MPPE. Sem dúvidas, magia, só nas terras de Nárnia, e balas de prata, na Transylvania do Conde Drácula.


A esta altura, temos obrigação de atentar que poluição e congestionamento são duas condições que caminham de mãos dadas em nossas cidades e as escolhas de transporte fazem toda a diferença aí. Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) revela que os automóveis são responsáveis por 72,6% das emissões de gases efeito estufa (GEE) - o CO2 (conhecido como dióxido de carbono ou gás carbônico é um desses gases, e o excesso desse composto químico na atmosfera provoca o aquecimento global e as mudanças climáticas). Por essa razão que carecemos em neutralizar os danos causados pelos veículos tradicionais.



Acreditando que a realidade na qual tragicamente vivemos seja um equívoco, seguem algumas evidências que ilustram o que o desenho de nossa capital proporciona, e, consequentemente, o que precisamos transformar visando essa perspectiva.



Ajuste n.º 1 - Apostando na Segurança Máxima: a 'Segurança em Cada Esquina'


De acordo com o Relatório Preliminar de Vítimas fatais de sinistros de trânsito do Recife, realizado em parceria entre a CTTU e a Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária, os pedestres representam o maior número de vítimas fatais na cidade, com 43% dos casos. Em todos os anos da série histórica analisada, as principais vítimas feridas foram motociclistas, já entre as fatais, as maiores ocorrências foram com pedestres, seguidos de motociclistas. Quanto à idade, as principais vítimas feridas foram entre 20 e 39 anos em todos os anos analisados. Ainda assim, em 2021, os dados do Comitê Municipal de Acidentes de Trânsito (Compat) indicam uma redução de 25% na morte de pedestres entre 2020 e 2021:


"Outro dado importante fornecido pelo relatório foi a distribuição espacial dos sinistros de trânsito, georreferenciados. Além do tratamento desses dados, foi analisado os principais fatores de riscos que levam as ocorrências de sinistros de trânsito. A Johns Hopkins University (JHU), em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global (BIRGS), realizou uma pesquisa observacional e recolheu dados em mais de 40 mil situações sobre o comportamento dos condutores recifenses quanto a três dos principais fatores de riscos listados pela OMS: excesso de velocidade, uso incorreto do cinto de segurança e uso incorreto do capacete em motociclistas".


O sequente Relatório Anual de Segurança Viária do Recife 2022, com dados referentes a 2021, expôs que 49% dos sinistros de trânsito (não é mais acidente de trânsito que se diz, segundo a ABNT - entenda) com vítimas fatais aconteceram no horário da noite e da madrugada (das 88 mortes registradas no trânsito em 2021 no Recife, 15 foram pela manhã, 23 à tarde, 37 à noite e 11 de madrugada - esse horário é compreendido das 18h à 0h/noite e da 0h às 6h madrugada). O relatório foi o segundo realizado pela Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) em parceria com a insigne entidade Bloomberg de Segurança Viária Global (BIRGS), referência mundial no setor e que presta consultoria ao município desde 2020.


Neste intervalo, contudo, a população não pode contar com a efetividade da fiscalização eletrônica, uma vez que a Prefeitura do Recife “desliga” toda e qualquer fiscalização eletrônica de trânsito à noite e durante a madrugada (como adverte muito bem a jornalista Roberta Soares, da coluna Mobilidade do JC): "justamente quando as estatísticas de segurança viária da própria gestão municipal comprovam que o ato tem contribuído para a violência nas ruas e avenidas da cidade". E continua: "Apesar dos esforços técnicos da CTTU, conseguindo reduções médias de 50% nos sinistros com vítimas do trânsito, desde 2006 o Recife desliga a fiscalização eletrônica das 22h às 5h (são duas décadas procedendo dessa forma). Não se tem notícia de outra cidade brasileira que faça o mesmo".


O Vision Zero (Visão Zero) é a abordagem sueca para o pensamento de segurança no trânsito. Pode ser resumido em uma frase: nenhuma perda de vida é aceitável. A abordagem Visão Zero provou ser altamente bem-sucedida. É baseada no simples fato de que somos humanos e cometemos erros. O sistema viário precisa nos manter em movimento - mas também deve ser projetado para nos proteger a cada passo.


O Vision Zero foi concebido em 1994. Como todas as boas ideias, esta viajou rápido. Apenas três anos mais tarde, o Parlamento aprovou um Projeto de Lei de Segurança no Trânsito que colocou a Visão Zero na lei sueca. Desde então, a Suécia modelou sua estratégia de reforma da segurança no trânsito com base na abordagem e muitos outros países passaram a adotá-la, às vezes chamada de segurança sustentável (NL) ou abordagem de sistema seguro (OCDE). No Brasil, após anos de luta dos cicloativistas, no fim de 2019, a prefeitura de São Paulo se valeu do programa, traduzindo-o como Sistema Seguro no Plano Cicloviário do município.




Ajuste n.º 2 - Boa Viagem é o epicentro da insegurança viária do Recife


A Prefeitura do Recife tem abraçado cada vez mais a gestão de dados relacionados à mobilidade. Em 2021, lançou a nova Pesquisa de Origem e Destino. A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) tem empregado pesquisas de contagem de fluxo de pedestres, ciclistas e veículos motorizados antes e depois das intervenções, para mensurar a efetividade dos projetos. Auxiliarmente, foi criado um grupo de trabalho entre técnicos da CTTU e da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global (BIRGS) para tratamento dos dados de sinistros de trânsito com vítimas, o que garante uma maior efetividade nas ações de infraestrutura viária, fiscalização e educação para o trânsito, distribuindo as atividades nas áreas com maior número de ocorrências com feridos.


O melhor dos avanços inéditos em gestão de dados, é que, finalmente, estamos munidos das evidências para tomar medidas mais exitosas: juntos, os bairros de Boa Viagem e Imbiribeira (ambos na zona sul e contíguos) concentram mais da metade dos acidentes com vítimas. São igualmente os bairros que detêm a maior frota de veículos. Como distinguiu a jornalista Roberta Soares, a partir dos dados da Autarquia municipal:


"Em primeiro lugar, sem surpresas, vem o bairro de Boa Viagem, o propulsor econômico da capital, localizado na Zona Sul da cidade. E também o bairro mais populoso - pelos dados do IBGE, são 123 mil habitantes - e o que concentra a maior frota veicular da cidade - 88.748 veículos em fevereiro de 2022, segundo o Detran-PE. Foram 173 ocorrências com vítimas em 2020 - mesmo o Recife, o Brasil e o mundo estando no auge da pandemia de covid-19." - Roberta Soares, jornalista Coluna Mobilidade do JC (10.11.22)
(Créditos Arte: JC)

Boa Viagem é um extenso e populoso bairro nobre situado na Zona Sul da cidade do Recife, capital de Pernambuco, Brasil. Uma das suas principais características é a sua posição junta do Oceano Atlântico, onde fica a praia homônima. A avenida Boa Viagem, que corta o bairro por completo, é à beira-mar. O bairro possui uma das maiores aglomerações por metro quadrado da população da cidade, tendo em vista a vasta quantidade de edifícios e, em virtude de sua costa praiana (reputada uma das mais bonitas praias urbanas do Brasil), existem diversos hotéis no local.



Ajuste n.º 3 - Trânsito Calmo: A boa notícia é que o conceito já está sendo aplicado no Recife


O urbanismo tático salva vidas ao garantir mais segurança viária nas vias urbanas. O uso humaniza os espaços viários e pode proporcionar ao recifense uma nova forma de viver na cidade. São áreas cuja sinalização passa o recado de uma rua feita para todas as pessoas se respeitarem no trânsito, incentivando, assim, mais segurança viária.


Para melhorar a fluidez do trânsito e prover a segurança viária das pessoas, a Prefeitura do Recife, por meio da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano, tem entregado intervenções de trânsito calmo com uso de urbanismo tático. Os locais são escolhidos conforme o registro de sinistros de trânsito com vítimas e alguns projetos são debatidos junto à população, que sugere adequações em reuniões com a administração municipal. Com a mais recente a intervenção, já são mais de 40 projetos como esse na cidade.


Com a adoção das práticas consagradas internacionalmente, a capital pernambucana conseguiu, como esperado, ver os bons índices emergirem: alcançamos a Meta Global de Acidentes de Trânsito da ONU (reduzir em mais de 50% o número de óbitos de trânsito entre 2010/2020, algo notório considerando que apenas 5 capitais brasileiras conseguiram o feito) e ficamos abaixo da média nacional de mortes no trânsito em 2020. Essa eficácia não é fortuita - parimos (ufa!) um Plano de Mobilidade, e desde 2020, a cidade passou a receber a consultoria da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global (BIRGS), organização especializada em políticas públicas que atua em mais de 480 cidades pelo mundo e é referência na orientação e qualificação das gestões públicas sobre segurança viária.


Para os que desejarem conhecer em maiores detalhes os trabalhos no município, a Comissão de Acessibilidade e Mobilidade Urbana da Câmara do Recife recebeu para um debate representantes da Prefeitura do Recife e da Bloomberg, a entidade que atua para a segurança global no trânsito e que terá parceria com o Executivo até 2025. Confira a íntegra:



Ajuste n.º 4 - No entanto, nossa auditoria cívica evidencia que é preciso avançar (mais e melhor)


O caminho é longo e os problemas ainda estão por toda parte - extrapolando o famoso bairro desta análise. Em 2021, os dados despertam que mesmo com os novos trilhos, os pedestres permanecem sendo as principais vítimas fatais no Recife (ver recorte do Relatório governamental). Mas, as reduções obtidas - mesmo pequenas - mostram que o Recife caminha na direção certa. Aproveitando que a Prefeitura está no rumo adequado, e a auditoria cívica voluntária em curso no bairro, listamos uma série de trechos críticos e que ensejam em adicional, meditações sobre a capacidade da administração pública em nossa cidade.


Apesar de Boa Viagem ser um bairro que cresceu descontroladamente nos últimos 50 anos (ou seja, ter sido uma urbanização muito diferente dos mais tradicionais desta cidade com quase 500 anos de existência), semelhantemente, todos os trechos são bastante antigos e conservaram-se sem evoluções paisagísticas de mérito ao longo de praticamente todo esse tempo (salvo pequenas maquiagens que dissolvem com o desgaste das tintas). Muito aquém de impactar negativamente o bem-estar de moradores, trabalhadores e transeuntes do bairro, obviamente resvalam no campo econômico, em um estado cuja vocação turística é eixo basilar de florescimento.


Como poderão examinar por si mesmos, são pontos históricos e no entorno de restaurantes e hotéis antiquíssimos - e onde o 'simples caminhar' é, ainda, uma experiência repulsiva (por vezes, até temerária). Verificarão que o bairro ainda é indigno de suas crianças, suas gestantes, seus deficientes, seus idosos, seus ciclistas, seus estudantes, visitantes, e mesmo dos que resolvem nele trafegar como se não estivessem em um local repleto de escolas e locais turísticos, mas, em uma 'Autobahn' (rodovia alemã suposta 'sem marco de limite de velocidade'). Qualquer brasileiro que tenha conhecido as capitais vizinhas nota que no bairro e na cidade, a barbeiragem de motoristas é flagrante, com comportamento que beira a competição bestial com os não-motorizados (quase sempre com homens ao volante, diga-se de passagem).


A constatação impressionante de desrespeito faz parte do Primeiro Relatório Anual de Segurança Viária da CTTU e Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global: a esmagadora maioria dos condutores de veículos motorizados da capital excede a velocidade limite das ruas e avenidas - aterradores 75% dos veículos que trafegam no Recife. O estudo, que reúne e analisa as estatísticas dos sinistros de trânsito do Recife no período de 2017 a 2020, esmiúça, inclusive, que o descumprimento tem cara e perfil, estando associado ao tipo de veículo usado pelos infratores. Os condutores de Pickups não estão em primeiro lugar, mas merecem destaque porque responderam por 34% dos registros de excesso de velocidade por tipo de veículo (os automóveis em geral por 35%), enquanto as motocicletas lideram, com 49% dos registros.


Embora entre os investimentos recentes em toda a cidade, mais de 25 áreas escolares tenham recebido manutenção de sinalização específica para pedestres (com aviso sobre escolas e crianças nas proximidades) e mais de 1 mil faixas de pedestres sido requalificadas ou implantadas, as áreas a seguir demonstram a indispensabilidade do 'Visão Zero' e as barreiras físicas de velocidade. Com atitudes cotidianas inapropriadas para um espaço urbano, o bloqueio de concreto é substancial para evitar acidentes e - lentamente - 'civilizar' os condutores sem qualquer responsabilidade ou empatia. Além, claro, de beneficiar, verdadeiramente, a maior parte da população e mais vulnerável à fatalidades.


Vamos juntos 🚸⤵️


  • Pracinha de Boa Viagem

A antiga praça terminal (era o ponto final de vários ônibus) é um dos espaços direcionados para as recifenses e turistas, graças a sua localização: próxima aos hotéis e à praia de Boa Viagem). A pracinha é um histórico ponto de venda de artesanato da cidade, e às quartas-feiras, é o ponto de encontro da cultura local. No centro da praça existe a Igreja de Nossa Senhora de Boa Viagem (que teria sido construída em 1707 e que deu nome ao bairro), aberta durante horários de missa, e um obelisco (marco da inauguração do calçamento da Avenida Boa Viagem, em 1926). Apesar da magnitude dessa conjuntura, seu entorno é preocupante para pedestres e não-motorizados.


No vídeo, pode-se observar a hesitação diária dos que passam pelo local: a pedestre permanece estática ainda que um dos sinais (à sua direita) esteja aberto - com duas fontes de tráfego de carros, uma sempre perdura com fluxo, forçando os transeuntes a esperar a boa vontade de motoristas para poderem atravessar.


  • Avenida Barão de Souza Leão

Souza Leão foi um dos nomes mais nobres no Pernambuco do século retrasado. Dentre os seus membros, o barão de Souza Leão, Inácio Joaquim de Sousa Leão, se destacou ao ser vice-presidente da província (por suplência, atuou como presidente quatro vezes, entre 1886 e 1889). A Avenida fica entre os bairros de Boa Viagem e Setúbal (este, uma subdivisão do bairro cuja criação ainda está sendo regulamentada) e leva ao Aeroporto Internacional dos Guararapes Gilberto Freyre.


Poucas delimitações são tão salientes de risco para os não-motorizados quanto a que envolve o circuito de automóveis nas ruas Feliciano José de Farias (onde situa-se um posto de saúde, o Dom Miguel de Lima Valverde) e a Francisco de Barros Barreto, com circulação que abre-se tanto sentido Aeroporto, como o retorno pela Capitão Zuzinha. Sem faixas ou barreiras físicas, não é incomum testemunhar aventuras de veículos, ou mais perigosas: a dos pedestres em travessias alarmantes. O cruzamento possui nas adjacências o renomado Mar Hotel, condomínios residenciais, farmácias e em uma das esquinas, uma Padaria. Sim, caro(a) leitor(a), desde sempre foi desse jeitinho. Emoção pura - e pior na época de chuvas (com banho de esgoto e tudo!).


  • Igreja Nova de Boa Viagem

A Paróquia Nossa Senhora de Fátima de Boa Viagem, criada em 1998, faz parte da Arquidiocese de Olinda e Recife. Mais conhecida como Igreja Nova (exatamente em distinção à localizada na Pracinha), se destaca por obras sociais para os menos favorecidos, bem como por sua evangelização, sendo bastante popular no bairro. Está situada em uma rua de bastante tráfego: a Marquês de Valença, que agrega bares e restaurantes em uma ponta, e o Parque Esportivo Santos Dumont (o principal centro de treinamento de atletas profissionais do estado), no outro extremo.


Diante de um núcleo tão efervescente, seria de esperar que o local teria uma engenharia de tráfego diferenciada e com estrutura condizente. Lamentavelmente, a incompetência de planejamento urbanístico da capital é bastante patente em todo o entorno, que ostenta diversos vazamentos de esgoto nos pontos comerciais, calçadas repletas de irregularidades e até penúria de lixeiras, o que costuma provocar o descarte aleatório. Sem uma engenharia de trânsito bem desenhada e sinalização preponderante, seus dois cruzamentos são palco de todos os tipos de 'barbeiragem'. Se para os motorizados é desse modo, imaginem para os demais - atenção redobrada e estresse ininterrupto.


Corroborando, a esquina da Rua Padre Luiz Marques Teixeira com a Marquês é um cruzamento por assim dizer, sinistro. Toda a área circundante da Igreja deveria ter um tráfego orientado para os pedestres, já que ainda engloba cafés, bares, toda sorte de estabelecimentos comerciais - mas, infelizmente, é caótico. Sem sinalização de placas sobre proibição de giros ou rotas, os carros trafegam por todos os lados, a qualquer momento. Durante o dia, os riscos são maiores para os estudantes das escolas e dos usuários do Parque Santos Dumont, e à noite, um risco generalizado, especialmente com as 'entradas' de automóveis e motos advindos da Rua Cel. Anízio Rodrigues Coelho, muitas vezes sem a menor observação (ou a devida visibilidade) a respeito da passagem de pedestres na rua, que sequer conta com faixa.


  • Principal via de acesso ao Shopping Center Recife

Primeiro centro de compras do estado (fundado em outubro de 1980), o Shopping Recife tem o pioneirismo e a inovação como uma de suas principais características. Recebe mais de 65 mil pessoas por dia em seu mix de serviços e lojas, afora ser um colossal polo gastronômico, com cerca de 90 operações de alimentação. Transcende ser um mero centro de compras, representando hoje um equipamento moderno voltado para atender às demandas nos campos de serviços, experiências, lazer, cultura, gastronomia, medicina & estética, e entretenimento para públicos de todas as idades – sem esquecer os animais de estimação:


Entre os principais impactos da fundação do Shopping Recife está a formação da autonomia da Zona Sul da cidade, que passou a compor um novo eixo socioeconômico independente do centro. Crescemos junto com a cidade, queremos celebrar esses 40 anos e expandindo esses encontros com as pessoas e com o que nos cerca. Afinal é para eles que buscamos inovar constantemente e entregar serviços, produtos e experiências exclusivas”, reforçou Renata Cavalcanti, gerente de Marketing do Shopping Recife, em matéria acerca do aniversário.



Como salientamos preliminarmente, apesar do decurso de quatro décadas após sua inauguração, e tamanha expressividade multifatorial para o bairro e a cidade, as próprias calçadas da entrada mais antiga e conhecida são, 'desde sempre', uma calamidade para os pedestres, deficientes e/ou transeuntes de mobilidade reduzida:


Paralelamente, um realce especial para as tampas de bueiros 'sambantes': uma marca por todo o perímetro analisado e talvez da cidade inteira.


  • A precariedade de calçadas em trechos significativos

Com o ganho de uma nova circulação viária no final de 2021, as cercanias de Setúbal (uma subdivisão informal de Boa Viagem) foram tornadas mais amigáveis aos pedestres. Contudo, um perímetro imperativo, justamente entre a Rua Sá e Souza (a partir da Escola Americana/The Baker) e o cruzamento com a Avenida Barão de Souza Leão, com os pontos de ônibus mais utilizados em sua arterial central, e até um recém-inaugurado supermercado, adentra o século XXI com calçadas bastante irregulares. É digno de menção que as pinceladas frescas de reformas, nas pontas dos passeios situadas no cruzamento da Rua com a Capitão Rebelinho (agregando passagens elevadas) são um bom início de melhoria - mas, como a galeria abaixo registra, é preciso, de fato, a reforma completa (sem esquecer de resolver o vazamento de esgoto na frente da padaria).



Aqui, enfatiza-se a ausência de arborização satisfatória, como ilustra a própria Barão de Souza Leão: desde a requalificação da via (através do Programa 'Calçada Legal' da PCR, lançado em 2017), dois canteiros na calçada de uma escola pública seguem sem plantio. Por sua vez, o panorama da foto permite observar que o passeio esquerdo não contém absolutamente nenhuma arborização, a não ser as fixas nos estabelecimentos privados da Avenida. Decisivamente, um fator que concorre para desestimular o caminhar, intensificando o desconforto térmico, em uma capital tão calorenta como o Recife (não podemos esquecer nunca que estamos colados na Linha do Equador).


A aridez em plena Avenida Barão de Souza Leão - uma das primeiras de Boa Viagem, conecta ao Aeroporto

Ainda, quando as calçadas chegam a ser reformadas, a omissão de punição para os donos de estabelecimentos que persistem no desprezo ao espaço dos pedestres.

Os Donos da Bola: Borracharias e Lava-Jatos ocupam as Calçadas como querem

Registramos em vídeo, a dificuldade que o pedestre pode ter ao passar pelas margens do canal próximo à Delegacia, com carros avantajados, pneus, entrada e saída de veículos em um estabelecimento e até estacionados na via:


É, aliás, conveniente de ponderação como um dos restaurantes mais turísticos pode ter ao seu lado uma rua de terra batida (a R. Cel Benedito Chaves, com um esqueleto predial aparentemente abandonado, inclusive) e ser cercado por obstáculos nas calçadas, seja por pneus - tanto na calçada à esquerda, como à direita -, como pela constrangedora beira canal (vamos abstrair por ora, o cheiro de esgoto das águas escuras)...


  • A precariedade de pontilhões também é algo explícito

Pouco mais de um ano após a abertura da primeira loja no Recife, o 'Bompreço' se expandia para outros bairros - chegou na Madalena (1967), Ceasa e Parque Amorim (1969), Arruda e Boa Viagem (1971): "Um dos destaques foi a loja da Conselheiro Aguiar, uma das mais modernas e bonitas do Grupo. Tinha área de 2,6 mil m², piso de granito, forro e estrutura de alumínio e vidro fumê", resgata seu criador, o empresário João Carlos Paes Mendonça. A loja, que existe até hoje, meio século posteriormente estampa um vergonhoso acesso, mediante uma frente com descarte irregular de lixo incessante, vazamento de esgoto, e um pontilhão ordinário. Um vexame que parece não ter solução.


Eis a visão dos que fazem a travessia corriqueira diária no canal entre o restaurante Ponteio (antes, O Laçador) e o supermercado antiquíssimo:


Evitar o terrível caminho não parece uma boa opção: à esquerda há uma bifurcação entre as avenidas Domingos Ferreira e Fernando Simões Barbosa. No ponto, pasmem, há um estacionamento inclinado (!) e um calçamento íngreme para a passagem de pedestres. Apesar do raio ser um dos de maiores fluxos e dimensão turística, é completamente hostil devido à lacuna de um planejamento urbano qualificado.


Av. Domingos Ferreira/Simões Barbosa: Bicicletas, pedestres e turistas sem prioridade em Boa Viagem


Ajuste n.º 5 - Empenhar-se em Monitoramento


É crucial avultar que monitorar sincronicamente o comportamento nas vias ao longo do tempo é fundamental, para avaliar a imprescindibilidade de intervenções adicionais e complementares. Para este relevante quesito, utilizamos o caso da Rua Dona Magina Pontual (que inicia na esquina do restaurante Ponteio e segue até a rua Padre Luiz Marques Teixeira). Há pouco uma das piores do bairro, era cheia de altos e baixos (estabelecimentos comerciais criados com o tempo na rua de perfil majoritariamente residencial engendraram o tráfego de caminhões pesados que afundaram inúmeros trechos). Outrora sem calçadas, o saldo dessa combinação de descontrole urbano era ainda maior nos tempos de chuva.


A problemática via, contudo, foi reformada em 2022, conquistando as calçadas e asfaltamento. As calçadas, entretanto, já apresentam uns pontos quebrados (por tentativas de consertos nas redes de drenagem e esgoto - a água na rua chega com coloração amarelada, segundo alguns moradores), entremeio ter germinado um outro transtorno: sem barreiras de redução de velocidade, motoristas (de carro e moto) passaram a transitar na rua (que detém uma escola) em alta velocidade. A esquina entre a rua e a João Dias Martins, desde sempre campeã em sinistros de trânsito, registrou (só em dezembro) duas ocorrências em que os carros envolvidos invadiram a calçada (como atestam as marcas deixadas pelo último 'acidente'), por sorte, sem pessoas ali nas ocasiões (ver galeria abaixo).


Salvo a visível escassez de sinalização para evitar quaisquer erros dos condutores, a importância das barreiras de velocidade, como pontuada pelo Visão Zero Sueco, pode ser melhor compreendida virando-se a esquina e seguindo pela João Dias Martins em direção a um dos pontos críticos da Igreja Nova listados anteriormente. Há a presença de uma lombada, o que ajuda a entender como o caos não foi maior ao varar dos anos. Ao menos em uma das vias que levam ao cruzamento, há um elemento que obriga a redução de velocidade.

Lombada apagada na Rua João Dias Martins

As lombadas, apesar de provarem-se efetivas, podem encontrar-se apagadas rapidamente, exigindo atenção com a repintura sempre (como registra a foto). Para nossa felicidade, a Prefeitura do Recife já soma uma série de intervenções em diversas ruas do bairro com passagens elevadas, que não somente atenderiam a tal propósito, mas reforçariam a segurança de pedestres, cadeirantes, todo o público que mais precisa de uma mobilidade realmente focada nos mais desprotegidos. Na Capitão Zuzinha, testemunhamos a combinação mais inteligente e humana: uma senhora atravessa com mais tranquilidade, e, simultaneamente, carros e motos desaceleram e rumam com mais atenção. Bastante larga, faculta aos deficientes sentir a plenitude de viver a cidade com mais autonomia. Em suma, uma mobilidade decente e disposta ao amplo bem-estar.


  • As raríssimas vias de ciclismo com sinalização esporádica e pouco aparente

Com imensa aptidão para um ser bairro inteiramente ciclável (por ser perfeitamente plano e praticamente todo pavimentado), é raro encontrar vias seguras para o tráfego com bicicletas. Se erigida como essencial, sabemos bem, a ciclomobilidade poderia ser um pilar central de descarbonização e aliviar a temperatura na cidade - ao menos no bairro. Válido frisar que em trechos sem segregação (ciclovias), os riscos para a segurança do ciclista são mais elevados.


  • A fiação é um capítulo à parte, já que todo o bairro apresenta evidências de um verdadeiro descaso, como ilustram imagens de fiação enrolada em lixeiras e até plantas (no vídeo, registro na R. Dona Magina Pontual):



Investir em segurança viária é Acolher e Patrocinar a Vida (de múltiplas formas)


A acessibilidade, cada vez mais, tem dominado diversos debates na sociedade brasileira. Há o entendimento da premência de endossar oportunidades iguais a todos cidadãos. Em equipamentos culturais, a falta de compromisso em prol do acesso universal à cultura é um impedimento que pessoas com alguma deficiência (PcDs) têm de lidar diariamente. Em Recife, como descortinamos, essa realidade não é diferente. Uma pioneira iniciativa não-governamental dedicada ao universo das PcDs no estado, o projeto Eficientes, mapeia os pontos turísticos e de lazer que oferecem essa estrutura inclusiva e ajuda a entendermos essa exclusão.


Portanto, cultivarmos com arrojo um modelo de cidade mais acessível é afiançar o progresso da vida de todo(a)s nós e do nosso potencial econômico: matutemos como a Pracinha de Boa Viagem (onde está situada a Igreja que deu nome ao bairro e seu berço histórico), é tão inacessível e melindrosa mesmo à passagem de pedestres. De causar estranhamento aos maiores apaixonados pela capital pernambucana, e decerto, aos visitantes estrangeiros que recebemos em nossas terras, cujos primeiros olhares e percepções são dos ângulos e faces críticas exibidas nesta análise.


A arquitetura e o urbanismo historicamente tem agido por meio de ideologias urbanísticas que delineiam as práticas aceitas na condução do espaço citadino. Várias são elas, notabilizando-se no meio das mais contemporâneas, a “Cidade para pessoas”, cunhada por Jan Gehl, para trazer respostas à cidade voltada ao pedestre. Nessa lógica, nossa mensagem final é de alerta ao que tem sido a prática cultural: quem caminha à pé pelo Recife habituou-se à só atravessar sinais e faixas de pedestres imediatamente ao certificar-se que os automóveis de fato pararam, já que não raro, infelizmente, mesmo em pontos bem sinalizados, a licenciosidade da ultrapassagem costuma ser recorrente (e, quase sempre, sublinha-se, por homens ao volante, que representam 72,8% dos condutores habilitados no estado).


Mudar mentalidades é algo bastante lento, nós sabemos. Por isso, apostemos nossas fichas na continuidade da multiplicação das barreiras físicas e da 'Visão Zero'. Forcemos a parada - toda vida vale a pena!

Cruzamento da Rua Dona Magina Pontual: sem barreiras físicas, ponto de restaurantes é arriscado para pedestres

As pessoas unidas têm o poder de transformar suas cidades. Ter uma cidade planejada, com qualidade de vida e de maneira sustentável é uma luta eterna para todas as cidades, e logo, qualquer habitante do planeta, em qualquer lugar! Há 5 anos cooperamos para aprimorar a transparência, os debates públicos e a participação da sociedade - até mesmo em outras iniciativas voluntárias, como o projeto Eficientes. Faça da sua consciência uma diferença social: chegue junto e some esforços para uma Recife mais justa e melhor de se viver!


Mergulhe no CicloAtivismo!

No transcorrer da história, o espaço urbano era o principal local de encontro, de trocas e de convivência entre os indivíduos. Até o triunfo dos ideais modernistas de planejamento urbano, aliados à invasão dos automóveis nas ruas, que asseveraram o aumento da densidade demográfica urbana e a segregação socioespacial, desumanizando os ambientes urbanos em termos de escala e pertencimento. E o que a luta cicloativista tem a ver com isso? Tudo. O assunto é abordado em vídeo do projeto Videoteca da Ameciclo, cujo tema é “Cicloativismo”. A série traz conteúdos práticos e políticos sobre a bicicleta para ampliar o acesso aos conhecimentos produzidos pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (com mais de 1.100 membros).

Num contexto de elevados números de mortes no trânsito, segregação social, poluição ambiental e privatização de espaços públicos, andar de bicicleta é um ato político, pois semeia nas pessoas a reflexão de como as cidades devem ser pensadas verdadeiramente. E por ser um veículo democrático, barato e de fácil manutenção, democratiza o acesso a todos os dispositivos da cidade, proporcionando mais liberdade e autonomia para quem se locomove.


O cicloativismo não deve se ater unicamente à questão do combate à 'carrocracia', mas do mesmo modo, à realidade que populações historicamente oprimidas pelo homem branco e carrocrata vivem - citando-se, por exemplo, as mulheres, de múltiplas identidades, que estão na constante luta para que possam viver, (re)existir e modificar o espaço urbano da forma que lhes convém. Ativistas dos núcleos internos de debates 'GT Mulheres' e 'GT Ciclopreto' ensinam sobre essa dimensão no vídeo abaixo.


  • O Perfil do(a) Ciclista Recifense

A bicicleta entra no Brasil no final do século 19, importada pelos imigrantes europeus como um artigo de luxo, lazer, transporte e desporto, mas não era um veículo que servia às massas, apenas a uma pequena parcela da população. Com sua popularização e aquisição mais acessível, emergiu como uma alternativa de deslocamento viável também para a população de baixa renda, que passou a enxergar nela sua enorme peculiaridade enquanto meio de transporte barato e de fácil manutenção.


Realizada em 2015 e 2016, a Pesquisa Nacional Perfil do Ciclista Brasileiro, trouxe valorosos levantamentos que servem de subsídio para que gestores públicos, urbanistas e outros atores envolvidos, possam melhor direcionar políticas públicas voltadas para o transporte cicloviário. A apuração constituiu a primeira investigação brasileira sobre o perfil dos ciclistas urbanos e suas motivações para utilizar a bicicleta. Os resultados visaram a preencher uma lacuna onde até então havia exíguo conhecimento sobre os usuários e o uso da bicicleta como transporte urbano no Brasil. Mais de 100 pesquisadores foram a campo em dez cidades de diferentes regiões brasileiras: Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Manaus, Niterói, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.


Os dados seguem sendo atualizados, e em 2021, uma terceira edição foi realizada. Através do trabalho foi revelada a verdadeira “cara” do ciclista recifense:



Saiba Mais | O exemplo de Nova York e a Transformação pela Liderança Pública


Outros dois benefícios para a política das cidades ao ousarem em urbanismo de qualidade para os pedestres está na atração do turismo e na redução de gastos públicos principalmente em relação à manutenção da estrutura viária e saúde pública. O custo da saúde relacionado à inatividade física continua a aumentar globalmente. De acordo com estudos, representa 1,5% – 3,0% dos custos diretos totais de saúde nos países desenvolvidos.


Em algumas cidades pelo mundo, essa proposta de 'devolver' o espaço aos pedestres vem dando muito certo. É o caso de Nova York, onde várias avenidas, inclusive a Times Square, passaram pela pedestrianização. No local, transitam diariamente cerca de 400 mil pessoas e, desde que passou a ter mais espaço para andar, a via é usualmente fechada para eventos.


Antes e depois: o fechamento da Broadway na Times Square. Foto: Julio Palleiro / NYC DOT

O trabalho de um comissário de transportes não se trata somente de placas de 'pare' e sinais de trânsito, explica Janette Sadik-Khan, que foi indicada para o papel em Nova Iorque (EUA) em 2007 e tornou-se uma estelar referência global em humanizar cidades. Quando Sadik-Kahn assumiu a Secretaria de Transportes de Nova York, a convite do ex-prefeito Michael Bloomberg, sabia que teria uma missão inédita: colocar em prática o primeiro plano de crescimento elaborado pela cidade, o PlaNYC, com diretrizes de sustentabilidade para reduzir em 30% o nível de emissões de gases de efeito estufa e preparar a Big Apple para um milhão de novos residentes até 2030.


A mobilidade sustentável foi peça-chave para a transformação que levaria Nova York a um novo patamar em liderança ambiental. Em sua famosa palestra (TEDx) engraçada e instigante, ela detalha o pensamento por trás de iniciativas bem sucedidas de reformular a vida nas ruas dos cinco distritos, como a inclusão de zonas pedonais na Times Square e a chegada do Citi Bike.



A urbanista estadunidense, fala sobre as transformações na mobilidade de Nova York e sobre como tais mudanças podem ser executadas em qualquer cidade do mundo. Afinal, com mobiliário provisório e tinta, regiões emblemáticas da cidade, como a Times Square, foram fechadas para carros, o que gerou mais segurança e aumentou o convívio nos espaços públicos, no ínterim, fomentando o comércio local. “Até os nova-iorquinos foram à Times Square”, brincou a especialista, durante palestra no Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre.


Sadik-Khan comenta os projetos originais das cidades no início do século XX, focados nos carros, e mostra como as sociedades estão “empacadas nesse status quo.” A urbanista explica que as necessidades atuais dos cidadãos já não correspondem mais a estes projetos e fala sobre o que é preciso para começar uma revolução urbana. Uma revolução, que como destacamos, já começou no Recife, mas precisa - e deve - avançar ainda mais e com urgência.


As cidades que prosperam são as que oferecem opções saudáveis de deslocamento” - prega a estrela do redesenho urbanístico humanizado, em antiga entrevista. Siga seu perfil no Twitter para acompanhar suas manifestações mais atuais.

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